sexta-feira, 28 de abril de 2017

Resumo da semana

Hoje saíram os dados de crescimento do PIB dos EUA para o primeiro trimestre: a economia cresceu a uma taxa anual de 0,7%, o ritmo mais lento dos últimos três anos. Nas componentes do PIB, o consumo cresceu apenas 0,3% por causa de menos vendas de automóveis e menos gastos em custos de aquecimento das casas no inverno. Em contraste, os custos de emprego (compensação pelo trabalho, que inclui salários e benefícios) aumentou 0,8%, o valor mais alto desde o último trimestre de 2007.

As sondagens indicam que há bastante optimismo dos cidadãos relativamente à economia e, no entanto, os dados duros não traduzem esse optimismo em crescimento da economia -- as pessoas ganham mais, mas nem por isso gastam mais. Há quem ache que esta inconsistência é, por um lado, produto do método de ajustamento sazonal usado pelo Commerce Department, pois desde 2000, no primeiro trimestre a economia cresce sempre a uma taxa bastante inferior à dos outros -- em média cresce apenas 1%. Por outro lado, este ano o Inverno foi bastante ameno o que tem implicações em termos de compras de roupa, gastos de energia, etc.

Ontem conversei com uma rapariga que trabalha na área da Construção Civil, em Houston. Tenho notado que há bastantes obras espalhadas pela cidade, logo perguntei-lhe o que é que ela observava na sua empresa. Disse-me que a maior parte da construção é acabamento de projectos já iniciados, mas não há muitas obras novas. O tipo de construção é maioritariamente apartamentos mais luxuosos, porque ela diz que os construtores têm facilidade em arranjar pessoas que paguem $1300/mês por um apartamento T1, logo é um mercado mais lucrativo do que o de construir casas para famílias, até porque um lote de terreno no centro de Houston está bastante caro e os apartamentos permitem diluir o custo do terreno em mais unidades. No resto dos EUA, o mercado imobiliário actual caracteriza-se pelo baixo número de casas disponíveis para venda, o que tem pressionado os preços do imobiliário.

Esta semana também saiu uma notícia relativamente aos bancos locais e regionais onde o número de empréstimos efectuados está em baixa. Estes bancos têm-se afastado de investir em imobiliário comercial e no sector de vendas a retalho, pois o comércio tradicional está em decadência devido ao maior número de compras efectuado pela Internet. Muitas empresas têm também aproveitado o optimismo dos investidores e emitido dívida directamente no mercado de capitais, através de bonds, por exemplo. Quem está bastante interessado em empresas industriais no chamado Rust Belt, a área geográfica que nunca chegou a recuperar da Grande Recessão, são os investidores estrangeiros. Este afastamento dos bancos locais e regionais é um canário na mina, pois estes bancos têm critérios bastante apertados na selecção de empréstimos.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Bonzinhos e Mauzinhos

Estava a ler uma entrevista de Junho do ano passado ao matemático Steven Strogatz, quando me deparei com esta parte, que me fez pensar na onda de populismo que navegamos hoje em dia:

So in fact what was found in later studies, when they examined prisoner’s dilemma in environments where errors occurred with a certain frequency, is that the population tended to evolve to more generous, more like New Testament strategies that will “turn the other cheek.” And would take a certain amount of unprovoked bad behavior by the opponent ... just in order to avoid getting into these sort of vendettas. So you find the evolution of more gradually more and more generous strategies, which I think is interesting that the Old Testament sort of naturally led to the New Testament in the computer tournament — with no one teaching it to do so.

And finally, this is the ultimately disturbing part, is once the world evolves to place where everybody is playing very “Jesus-like” strategies, that opens the door for the [the player who always defects] to come back. Everyone is so nice — and they take advantage of that.

I mean, the one thing that’s really good about “tit for tat” is that … the player who always defects — he can’t make much progress against “tit for tat.” But it can against the very soft, always cooperating strategies. You end up getting into these extremely long cycles going from all defection to “tit for tat” to always cooperate and back to all defection. Which sort of sounds a lot like some stories you might have heard in history. Countries or civilizations getting softer and softer and then they get taken over by the barbarians.


Fonte: Steven Strogatz entrevistado na Business Insider

Floricultura 16



Constantino José Marques de Sampaio e Melo, florista português, ficou para a história graças aos seus arranjos artificiais de pano e papel.

Activismo político

Há um programa de rádio produzido em Dallas, que se chama Think, e que tem sempre entrevistas muito interessantes com pessoas de várias áreas. Eu já vos devia ter falado deste programa várias vezes, pois ouvi várias entrevistas que gostaria de ter partilhado convosco e podem fazer o download do podcast. A de ontem foi a Chelsea Clinton, que pode ter algum interesse, mas o pedaço de informação que ficou na minha cabeça foi quando ela disse que, de acordo com a Emily's List, um grupo de defesa dos direitos das mulheres, desde a eleição de Donald Trump, mais de 10.000 mulheres manifestaram interesse em tornar-se candidatas em eleições; no último ciclo, apenas 900 concorreram.

O nível de activismo político está bastante alto. Já fui a duas marchas e a um evento de um Representante no Congresso que quer concorrer para o lugar de Ted Cruz, no Senado. Tinha planeado ir a uma Town Hall do meu Representante no Congresso, mas acabei por ter um conflito. Neste Sábado teremos o Movimento Povos Clima (Peoples Climate Movement). Há uma lista enorme de movimentos anti-Trump que foram agregados na Wikipédia.

Convidei a minha vizinha JP, que tem 92 anos, para jantar em minha casa na semana passada. Durante a nossa conversa, disse-me que achava extraordinário tanto activismo, que nunca tinha visto nada assim. Fica sempre feliz quando vou a uma marcha. Perguntei-lhe se não tinha sido assim durante os anos 60, com as manifestações anti-guerra, anti-segregação, pró-mulheres, etc. Depois de alguns segundos em silêncio, disse que sim, que estamos como nessa altura.

Ontem no programa de rádio 1A falavam dos protestos estudantis em UC Berkeley de 1964, que reivindicaram a liberdade de expressão no campus. Agora, os protestos em UC Berkeley são por causa de um convite feito a Ann Coulter, que alguns estudantes acham ofensivo. Um dos participantes no debate dizia que Ann Coulter não iria a Berkeley defender nenhum ponto de vista novo, apenas ia dizer o que já tinha dito antes, logo não havia supressão do direito de expressão, até porque Coulter diz o que diz para gerar receita -- é acima de tudo um negócio.

Alguém dizia que os estudantes eram crescidos e não precisavam de ser protegidos; para além disso, parte do sucesso de Ann Coulter era exactamente a atenção que estes estudantes, que a não queriam ouvir, lhe davam -- seria mais eficaz ignorá-la. O outro convidado discordou, pois achou que já tínhamos tentado ignorar estas pessoas e não tinha funcionado; para ele, era preciso ridicularizar quem tem discursos de ódio. (Se leram os livros do Malcolm Gladwell, talvez este argumento não vos seja estranho, pois Gladwell defendeu que a forma mais eficaz para derrotar o Ku Klux Klan foi a sua ridicularização em livros de banda desenhada do Super-Homem.)

Quando fui a casa almoçar, uma outra vizinha veio ter comigo. Disse-me que tinha falado com a JP e esta lhe tinha dito que eu tinha ido à Marcha pela Ciência. Disse-me que devia ter ido, que precisava de se tornar mais activa, talvez fazer voluntariado com o Indivisible Movement. Na próxima vez que eu for, enviar-lhe-ei um convite.

Já ouvi várias pessoas dizer que a Presidência de Trump é, acima de tudo, uma oportunidade para derrotar o discurso de ódio. Nos EUA, há sempre alguém que vê oportunidade onde outros vêem desespero e há sempre alguém disposto a levantar-se e lutar pelo que acredita. Não o fazer é considerado anti-americano.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Uma clivagem

Tal como para a zoologia existe o leão, para o pensamento científico existe o homem. A clivagem entre as ciências e a política nasce precisamente aí. Para a política, não existe o homem, existem os homens, na sua pluralidade.

Fado

terça-feira, 25 de abril de 2017

Walk the walk!

Desde há uns anos para cá, no 25 de Abril, vejo sempre pessoas a queixar-se de que não se devia comemorar o 25 de Abril, mas sim o 25 de Novembro porque foi aí que Portugal voltou a ser verdadeiramente livre. Alguns dizem a ditadura de Esquerda do PREC era muito pior do que a ditadura de Direita. Eu tenho alguma dificuldade com esta lógica porque comemorar o fim de uma coisa má que durou ano e meio e não comemorar o fim de uma coisa má que durou 48 anos parece-me um bocado ridículo. E depois falar comparativamente de ditaduras, cria a ideia que umas são preferíveis a outras, o que não é verdade: são todas más!

Tenho a impressão de que quem se queixa e tinha idade para isso, não fez nada de significativo para contribuir para o fim da ditadura de Esquerda ou da de Direita e vejo que muitas pessoas que criticam comemorar-se o 25 de Abril são também as que criticam que nos manifestemos contra o Trump porque este foi "democraticamente" eleito -- quantos ditadores foram democraticamente eleitos, já agora? E são também as que criticam a Geringonça, mas são incapazes de ir para a rua manifestar-se contra ela.

Eu sou uma grande comodista, mas tenho plena noção de que acima de tudo sou uma privilegiada: tudo o que tenho, alguém lutou para eu o ter, a começar pelas famosas liberdade de expressão e liberdade de me manifestar pacificamente. Por isso, sou perfeitamente capaz de ir para a rua manifestar-me. "If you talk the talk, you better walk the walk", como se diz aqui no meu burgo...

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Milagre dos cravos no Texas

Este ano sofri as passas do Algarve aqui em Houston. O meu craveiro andava com um aspecto um bocado fraquito e receei o pior. Não sei se o problema foram as duas noites, em ocasiões diferentes, em que tivemos temperaturas abaixo de zero, apesar do inverno extraordinariamente ameno deste ano, ou talvez o próprio inverno ameno, ou os meus amigos esquilos que seguem a filosofia pseudo-Palinista de "Dig, baby dig!" no meu jardim, só sei que a minha produção de cravos está com um rendimento bastante abaixo do normal. A modos que pensava que estava lixada este ano, sem um cravinho para o 25 de Abril.

Eis que, hoje de manhã, abro a porta das traseiras e deparo-me com este espectáculo! Não é perfeitinho? Tenho para mim que se deu um milagre dos cravos no Texas e eu estou pronta para a Revolução!

Internacionalização

O novo presidente da European Public Choice Society é português, é meu colega na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho e chama-se Francisco Veiga: http://www.epcs-home.org/president/.

Muitos parabéns.

O fim de uma história

A história é conhecida. A diferença ideológica entre esquerda e direita nasceu com a revolução francesa. Em 1795, o presidente da Convenção determinou que quem fosse a favor do direito de veto do rei se sentasse do lado direito e que quem fosse contra se sentasse do lado esquerdo. Esta distinção ideológica, nascida do acaso, estruturou a vida política nos últimos 200 anos. A política existe porque os homens são diferentes e necessitam de arranjar maneiras de coexistir e de se organizar no meio do caos das suas diferenças. Há muito que essas diferenças deixaram de caber na oposição binária esquerda-direita. Ontem, em França, este facto tornou-se mais evidente para muitos. E, se calhar, esta história tinha de acabar onde começou, em França.

domingo, 23 de abril de 2017

Mau perder?

É assim tão estranho que Mélenchon não consigne o seu voto ao opositor de Le Pen? No seu anti-europeísmo, é com Marine Le Pen que Mélenchon mais pontos em comum tem.

Bem sei que é chato para muita gente de esquerda ver isto. Mas, na verdade, parece razoavelmente óbvio.

Ontem

March for Science, Houston, TX










sexta-feira, 21 de abril de 2017

Um génio compreendido

Ibrahimovic vai abandonar o futebol depois da lesão do último jogo.
É uma pena. Por tudo. Não só pelo jogador que se perde, mas também pela personalidade. Gosto de pessoas arrogantes e convencidas. E este era-o nas doses certas, ou seja, descomunais. Tal como o seu talento.
"One thing is for sure, a World Cup without me is nothing to watch. -- Ibrahimovic, 2013.
"I was asked last summer who was the best, me or (Swedish ladies international) Lotta Schelin. You're kidding with me, right? You're joking with me. Do I have to answer that?They compare with me with the world's best footballers in Europe...with Messi and Ronaldo...and when I get home they compare me with women's football. What the hell, should I feel ashamed to come home?" -- Ibrahimovic, 2013.

“I'd already got the impression that Barcelona was a little like being back at Ajax, it was like being back at school. None of the lads acted like superstars, which was strange. The whole gang – they were like schoolboys. The best footballers in the world stood there with their heads bowed, and I didn't understand any of it. It was ridiculous." -- Ibrahimovic, 2015.
“On that list I would have been number one, two, three, four and five, with due respect to the others. Coming second is like finishing last.” -- Ibrahimovic, 2014, a pretexto de ter sido eleito o segundo melhor desportista sueco de sempre.

Felizes para sempre

Ao ler a peça do Pedro Brás Teixeira no Eco, ocorreu-me ir comparar o novo Programa Nacional de Reformas (PNR) com o anterior. O Pedro acha que o novo programa é bastante vago e eu subscrevo a opinião dele, mas achei que havia lá coisas engraçadas.